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Cognus Psicologia

Aqui você conhece uma pouco mais sobre a Terapia Cognitivo- comportamental

Tiques nervosos

Hélder Franco

              Você com certeza conhece alguém ou já observou uma pessoa na rua com algum tipo de trejeito estranho, como piscar excessivamente os olhos, executar algum tipo de movimento repetidamente ou pronunciar sons que não tem qualquer significado ou finalidade de transmitir mensagens. Você provavelmente se pergunta por qual motivo essas pessoas mantém comportamentos como esses, que não atendem a nenhum objetivo específico e, portanto, não têm uma utilidade prática. Ou talvez você já tenha lido ou ouvido falar algo sobre ¨tiques nervosos¨, e deduziu  que talvez aí se encontre o problema de tais pessoas, que não conseguem controlar essas ¨manias estranhas¨.

              De fato, quem sofre de Transtorno de tique não consegue submeter esses movimentos a um controle voluntário, o que se constitui num problema que pode assumir grandes proporções. Muito embora os tiques em si raramente causem algum tipo de prejuízo físico à saúde do indivíduo, eles geralmente são uma fonte de constrangimento para as pessoas que sofrem desse transtorno,  podendo ocasionar seqüelas psicológicas e, sobretudo, restrições na esfera social.

              O transtorno de tique pode se expressar através de tiques motores ou vocais. No primeiro grupo encontram-se aqueles movimentos estereotipados e repetitivos, geralmente súbitos e de difícil controle. Por sua vez subdividem-se em simples (piscar os olhos, encolher os ombros, morder o lábio, etc.) e complexos (gestos faciais, saltar, tocar, bater o pé, cheirar objetos, etc.).

            Os tiques vocais também obedecem a essa divisão, conforme sua extensão e o seu grau de complexidade. Incluem repetição de sons pronunciados por outras pessoas ou pelo próprio indivíduo, emissão de vocábulos socialmente reprováveis, ou outros tipos de vocalizações involuntárias sem fins de comunicação.

            Também vale ressaltar que existe uma diferença entre o transtorno de tique transitório e o crônico. No primeiro caso, os sintomas se mostram freqüentes, mas tendem a se extinguir num período inferior a 12 meses, aparecendo geralmente antes dos 18 anos de idade. Quando os sintomas persistem por um período superior a 12 meses, trata-se de um distúrbio de tique motor ou vocal crônico. Um exemplo deste último é o chamado Transtorno de Tourette, em que ocorre a presença de múltiplos tiques motores e pelo menos um tique vocal, simultaneamente ou em diferentes períodos da vida, de forma recorrente, de modo que os sintomas ultrapassam o período de um ano. Em todos esses casos, existe uma diferença básica dos comportamentos estereotipados de uma forma geral. Estes geralmente são rítmicos, mais intencionados e mais suscetíveis a um controle voluntário, quando comparados com os movimentos comumente observados nos transtornos de tique.

            Importante destacar também que os tiques não surgem acompanhados por pensamentos obsessivos, aqueles pensamentos intrusivos e recorrentes que aparecem no Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC), e que são responsáveis pela emissão de comportamentos considerados irracionais pela maioria das pessoas. No TOC, os comportamentos compulsivos tem como finalidade eliminar a ansiedade gerada a partir das obsessões que ¨inundam¨ a mente do sujeito. Os tiques, no entanto não assumem essa finalidade, embora geralmente aumentem de freqüência quando o indivíduo se encontra tenso ou nervoso.

            Para que o diagnóstico seja efetuado, é preciso certificar-se que os tiques não são conseqüência de nenhum outro quadro clínico primário, como Doença de Parkinson, Coréia de Huntigtom, acidente cérebro-vascular, ou devido a um efeito colateral do uso de alguma droga ou medicamento.

            As causas do Transtorno de tique ainda não são completamente compreendidas, mas acredita-se firmemente que uma substância denominada dopamina desempenha um papel fundamental. A dopamina é um neurotransmissor que participa da regulação de uma série de faculdades, entre elas a motricidade. Tal como ocorre na Doença de Parkinson, supõe-se que uma quantidade de dopamina acima do normal em atividade no nosso cérebro possa, em parte, ser responsável pelo aparecimento dos tiques.

            As pessoas que sofrem do Transtorno de tiques provavelmente não teriam a menor dificuldade de listar uma série de situações em que se sentem limitadas ou constrangidas por esse tipo de problema. Geralmente os sintomas tendem a se tornar mais intensos quando os indivíduos são submetidos a um nível elevado de estresse e ansiedade, o que nos permite afirmar que fatores psicológicos certamente estão envolvidos no aparecimento e manutenção desses sintomas.

            Atividades que absorvam a atenção do sujeito, como ler um bom livro, cuidar de um jardim, praticar algum esporte ou até mesmo as atividades do seu trabalho – desde que não sejam eliciadores de tensão ou estresse – contribuem para uma redução temporária dos tiques. Durante o sono, esses movimentos ou vocalizações, via de regra, também são suprimidos.

            Dessa forma, o tratamento desse transtorno não envolve somente a busca do controle ou eliminação dos tiques, mas também uma atenção mais direcionada para a qualidade de vida do sujeito, partindo-se do pressuposto que múltiplos fatores do seu dia-a-dia podem estar contribuindo para a gênese e permanência do quadro. Uma vez que os fatores facilitadores são identificados e modificados, torna-se mais simples a tarefa de buscar um controle da emissão dos tiques, até sua eliminação por completo. Em alguns casos, o acompanhamento psiquiátrico também se faz necessário. Mas sobretudo é importante tentar reduzir o nível de tensão e estresse e procurar ficar bem também do ponto de vista psicológico.