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Cognus Psicologia

Aqui você conhece uma pouco mais sobre a Terapia Cognitivo- comportamental

Estresse: o mal da vida contemporânea

Hélder Franco 

Afinal, o que é estresse?

O termo estresse – derivado da palavra inglesa stress – tem sido usado de uma forma indiscriminada nos últimos anos como sinônimo de cansaço, ¨estafa¨ física e/ou psicológica, tendo se constituído num dos ícones do modismo do vocabulário popular. Embora mantenha relações estreitas com o significado que lhe é atribuído costumeiramente, esse termo na realidade refere-se a um tipo de resposta que o nosso organismo emite e que remonta à própria história evolutiva de nossa espécie, como veremos adiante.

Um dos modelos mais aceitos para o uso desse termo deriva dos estudos do canadense Hans Seyle, um endocrinologista que buscava compreender a razão pela qual o organismo reage de uma forma inespecífica e idêntica a patologias causadas por diferentes agentes etiológicos. Concluiu que o organismo despende uma quantidade de energia num esforço de adaptar-se a determinados eventos com o intuito de manter um certo grau de homeostase. Algumas vezes, a carga de energia requerida está acima daquela que o organismo pode oferecer, gerando uma espécie de ¨sobrecarga¨, ocasionando os efeitos daquilo que chamou de ¨estresse¨. Resumidamente, segundo a sua teoria, a reação inicial quando o organismo se depara com uma situação percebida como ameaçadora, experimenta inicialmente a chamada ¨fase de alarma¨, em que o conjunto de reações corporais resultantes – aumento da freqüência cardíaca, da pressão arterial, redistribuição sanguínea, que faz com que o sangue concentre-se mais nos músculos e em certos órgãos, aumento do número de linfócitos na corrente sanguínea, etc. – preparam o organismo para reagir rápida e impulsivamente. A chamada reação de luta-e-fuga foi uma ferramenta fisiológica de suma importância para a espécie humana nos períodos em que os agentes estressores representavam um risco direto à sobrevivência.

Durante a fase de alarme, o indivíduo pode livrar-se do agente estressor que acabou por ocasioná-la, ou adaptar-se a esse agente. Porém, se a situação ameaçadora permanece, a força para a adaptação persiste, exigindo um empenho mais intenso do organismo, pois ele encontra-se mais vulnerável e sua homeostase é mantida a um certo custo. É a chamada fase de resistência que, entre outras reações, acaba provocando um desequilíbrio no sistema imunológico.

Se novos eventos estressores se superpõem, ou um mesmo agente permanece cronicamente, o indivíduo pode entrar na chamada fase de exaustão, com dificuldade em manter os mecanismos adaptativos e impossibilidade de reposição das reservas energéticas consumidas, podendo ocasionar as doenças psicossomáticas, ou, em casos mais graves, até mesmo a morte do organismo.

Esse conjunto de reações , referido por Seyle como ¨síndrome geral de adaptação¨ é mediado pelo sistema neuroendócrino, com a participação ativa de estruturas como o hipotálamo e a hipófise. Esta última aumenta a produção do hormônio ACTH, que estimula a liberação de corticosteróides pelas glândulas supra-renais. Estes quebram as reservas de glicose, numa tentativa de fornecer – ou disponibilizar – ao organismo a quantidade de energia da qual necessita. É evidente que se chegar a um ponto em que vários estímulos estressores se mantenham, as reservas energéticas serão esgotadas, deixando o indivíduo vulnerável a uma série de patologias, sobretudo se considerarmos que o aumento de cortisol no organismo prejudica sensivelmente a ação do sistema imunológico.

Por que as pessoas andam tão “estressadas”?

Talvez o ¨renascimento¨ do termo estresse nos últimos anos se deva à configuração que o estilo de vida nas diversas sociedades tem assumido. Cidades superpopulosas, problemas sociais, riscos de atos violentos e/ou terroristas, oscilações econômicas, são alguns dos vários fatores que demandam um constante esforço para adaptação. Para piorar, essas situações permanecem cronicamente, o que tem favorecido um aumento substancial na incidência de várias patologias que incluem, além de diversos sintomas físicos decorrentes das alterações supramencionadas, vários sintomas psicológicos, como ansiedade, medo, irritabilidade, alterações de humor, entre outros.

Deve-se ressaltar que, diferentemente dos nossos ancestrais em épocas primitivas, as ameaças com as quais nos deparamos atualmente não necessariamente oferecem riscos à nossa sobrevivência, mas nem por isso deixam de provocar efeitos prejudiciais em nosso organismo e em nosso estado psíquico. Mas por que algumas pessoas estão mais suscetíveis de sofrer os danos ocasionados pelo estresse, ou melhor, por eventos que podem ser potencialmente estressores? Existem dois pontos que devem ser levados em consideração para se responder a esse questionamento.

Em primeiro lugar, as pessoas não estão expostas aos mesmos eventos durante toda a vida. As situações com as quais os indivíduos se defrontam diariamente serão essenciais na determinação da intensidade  e na natureza dos estressores que estarão presentes. Alguns se submetem a cargas de trabalho excessivas, outros enfrentam condições de trabalho adversas, e ainda, outros enfrentam problemas no seu ambiente familiar que podem contribuir para o esgotamento observado nas ¨queixas de estresse¨. Da mesma forma, algumas pessoas elaboram estratégias para evitar ou amenizar os efeitos desses eventos, enquanto outras entregam-se completamente à sorte. Logo, o estilo de vida adotado terá um papel fundamental no nível de estresse experienciado. Essa afirmação imediatamente nos remete a duas imagens bem distintas que exemplificam tal fato. A primeira seria a imagem de um executivo enfurecido num engarrafamento, buzinando freneticamente, reclamando com todos à sua volta por ter de chegar mais uma vez atrasado em seu escritório, onde terá mais um dia tenso, repleto de reuniões e trabalho intenso, correndo contra cada segundo que ¨desperdiça¨ sem executar algum tipo de função. Essa imagem traz o que seria popularmente descrito como sinônimo de ¨vida estressante¨.

A outra imagem seria a de um pacato cidadão habitante de uma linda fazenda, vivendo dia após dia a desfrutar de um ambiente natural e exuberante, respirando ar puro, sem pressões do mundo externo, como uma ilustração perfeita de um sujeito para quem o estresse não passa de uma palavra sem sentido.

Porém, nem todos podem aderir a tal modo de viver, o que nos leva a crer que uma mudança radical no estilo de vida do nosso executivo não é a única solução possível. Ao mesmo tempo, nem todos os executivos que vivem na cidade grande e possuem uma grande carga de trabalho experimentam os efeitos do estresse. Por que isso acontece? A resposta remete ao segundo ponto a ser discutido.

Não são apenas as situações que os indivíduos enfrentam que são determinantes para o nível de estresse que elas experienciam, mas sobretudo a forma como elas interpretam essas situações. Já se sabe da influência que os pensamentos exercem sobre as emoções e o comportamento. Quando nos defrontamos com uma determinada situação, como um engarrafamento, por exemplo, podemos interpretá-lo de várias maneiras possíveis. Uma pessoa pode percebê-lo como um contratempo que irá consumir toda a sua manhã, e que o trabalho que não está sendo executado naquele momento não poderá ser recuperado. Logo, poderá sentir-se frustrado e enfurecido, e sua forma de reagir – buzinar, reclamar excessivamente – irá contribuir para que seja disparado todo aquele conjunto de reações anteriormente descrito. À medida que o tempo passa e outros eventos vão se superpondo, poderá ocorrer o esgotamento de suas reservas energéticas e a sensação subjetiva de “estar estressado”. Em contraponto, uma outra pessoa que se encontra num engarrafamento pode interpretá-lo apenas como algo que inevitavelmente faz parte de sua rotina, e que por isso mesmo não deve ser encarado como uma catástrofe. Poderá aproveitar o tempo ocioso para ouvir as notícias no jornal ou simplesmente relaxar como uma boa música, visto que o dia está apenas começando, e haverá tempo suficiente para pôr as tarefas em dia.

Dessa forma, um modo mais realista de interpretar determinados fatos, paralelo a pequenas - mas importantes – modificações na rotina diária podem contribuir significativamente para um estilo de vida livre dos sintomas prejudiciais e indesejáveis do estresse.