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Cognus Psicologia

Aqui você conhece uma pouco mais sobre a Terapia Cognitivo- comportamental

Compreendendo o funcionamento da ansiedade

Zwínglio Christopher

        Ao contrário do que se possa pensar a ansiedade é uma reação natural e indispensável ao ser humano. Sem a ansiedade, certamente teríamos grandes problemas ao lidar com situações de risco e ameaça. Isso por que a ansiedade é a reação fisiológica que permite uma resposta rápida a tais tipos de situações. É o que se chama de reação de luta ou fuga. Se um animal feroz vem em sua direção é a ansiedade que faz com que você fuja rapidamente ou lute, caso não seja possível fugir. Mas porque então existem tantos transtornos quando na verdade a ansiedade deveria ajudar e não complicar as nossas vidas?
Para poder responder essa pergunta, antes é necessário se explicar como funciona o mecanismo de ansiedade.

O Mecanismo da ansiedade

A ansiedade é uma reação emocional que coloca o sujeito diante de uma situação em que ele pode ter basicamente duas reações enfrentar ou fugir. Se imaginarmos uma situação em que o perigo a integridade física é real, como, por exemplo, estar no meio de um tiroteio, fugir será geralmente a melhor opção. Enfrentar diretamente ou ficar indiferente à situação, nesse caso, é um grande risco e perigo a própria vida. A ansiedade surge e incita o indivíduo a fugir da situação. Quando se está livre da situação a ansiedade deixa de fazer sentido e a pessoa relaxa. O fato de ter se livrado da situação de perigo através da fuga faz com que a fuga seja reforçada e no futuro, caso haja outras situações de risco, a habilidade de fugir se torna mais acentuada e esse comportamento torna-se automaticamente a opção mais imediata diante à situação.

 

Na situação descrita acima temos uma reação compatível e adequada ao ocorrido; a situação perigosa surge o indivíduo foge e fica mais seguro, a ansiedade então desaparece. Os problemas relacionados ansiedade, nos quais estão inseridos os transtornos de ansiedade, surgem em situações nas quais o perigo ou não existe ou é bastante supervalorizado. São aquelas situações do dia-a-dia sem grandes riscos como andar pela passarela, sair de carro ou até mesmo ficar em um lugar com muitas pessoas que se tornam tão ansiogênicas quanto na situação do citado tiroteio, tendo a diferença básica de que não apresentam os mesmo riscos. Nestes casos, a tendência a fugir também aparece e o sujeito, assim como nos casos de perigo real, consegue diminuir a ansiedade ou evitar o seu surgimento fugindo da situação. É o caso, por exemplo, do sujeito que fica ansioso em locais fechados ou com muita gente e que evita ou foge quando entra em contato com esse contexto. Ao evitar essas situações a pessoa não se submete a maiores níveis de ansiedade e se sente mais tranqüila e segura, porém, da mesma forma como acontece nas situações de perigos reais, fugir se torna o padrão para lidar com tais situações. Como a situação não é enfrentada diretamente não se torna possível avaliar os riscos reais e superá-la, pois cada vez mais a insegurança de que algo de ruim vai acontecer e reforçada. Ou seja, quanto mais se foge de qualquer acontecimento que cause ansiedade, maior é o reforço que se dá a esses eventos e muitas vezes outras situações que antes não causavam ansiedade passam a causar. Fazendo com que a pessoa fique presa a essa necessidade de fuga, tornando o problema cada vez pior.

As fases da ansiedade

Um episódio de ansiedade vai ser constituído por três fases: início, auge (meio) e o fim. Para que seja possível a superação de um transtorno de ansiedade é necessário se aprender a enfrentar as fases inicias sem a ocorrência da fuga. Quando se enfrenta as fases da ansiedade, sem se evitar a situação, a tendência é que haja uma gradual adaptação à situação que se teme fazendo com que paulatinamente a condição seja superada. Quanto maior for a ansiedade quando se foge de uma crise maiores serão as chances de uma crise mais intensa no futuro. O grande desafio é conseguir identificar uma crise de ansiedade e aprender a enfrentá-la, permitindo que aconteça seu ciclo completo sem se apresentar mecanismos de fuga. É bom deixar claro que estamos falando de situações que são ansiogênicas que ou não existem riscos reais ou estes são pequenos de tal forma que enfrentar vai ser sempre a melhor opção.

Mecanismos de fuga.

Um mecanismo de fuga vai ser qualquer comportamento, atitude ou pensamento que funcione como uma forma de não lidar diretamente com o que se provoca ansiedade. Pode ser desde sair de um local porque sempre se fica ansioso nele, lavar as mãos freqüentemente por ficar nervoso com a possibilidade de contaminação, ter que andar sempre acompanhado por acreditar que se andar sozinho pode passar mal e desmaiar, procurar médico com freqüência elevada sempre que sente qualquer coisa no corpo, não falar com pessoas por receio de rejeição, etc. Em todas estas situações, tais atitudes são alternativas (conscientes ou não) para reduzir ou evitar a ansiedade e não enfrentá-la diretamente. Momentaneamente funciona, pois quando se evita o risco que se imagina ser possível, se alcança mais tranqüilidade, fazendo com que a fuga se torne bem atrativa.

 

Algo importante de se observar e que se o que provoca a ansiedade fosse algo muito raro de acontecer, não haveria problema (alguém com medo de altura que mora numa fazenda terá poucos problemas com isso, por exemplo). A questão é que quando um transtorno de ansiedade surge, normalmente, está associado a alguma situação na qual se precisa passar com muita freqüência. Podemos dizer então que: uma situação ansiogênica que ocorre freqüentemente associada à fuga freqüente é igual a um transtorno de ansiedade em potencial.

Os pensamentos e a ansiedade

Assim como a maioria das emoções, a ansiedade só faz sentindo dentro de um contexto e de acordo com a avaliação que é feita da situação que a provoca. Ou seja, como a ansiedade é uma reação emocional a situações de possível perigo ela só vai acontecer a partir de uma percepção, avaliação ou pensamento a cerca de tais situações que o sujeito encara como sendo ameaçadoras. Quando alguém fica ansioso com lugares com muitas pessoas, por exemplo, essa situação tem que ser de alguma forma percebida como ameaçadora e isso acontece a partir dos pensamentos ou cognições que surgem avaliando a situação como sendo perigosa. A não ser em casos de medicamentos ou desordens fisiológicas, para que alguém fique ansioso é necessário algum tipo de elaboração cognitiva (pensamentos), seja consciente ou não.

O que provoca a ansiedade não é a situação em si e sim o que se pensa sobre a situação. Desta forma, ao invés de:

Situação (local com muita gente) --> Ansiedade (emoção)
(A situação provocando ansiedade)

Teremos:

Situação (local com muita gente) --> Pensamento (Estou passando mal e com falta de ar) --> Ansiedade (emoção).
(A percepção [cognição] da situação provocando ansiedade)

 

Para fins de terapia o é crucial aprender a identificar o que se chama de “pensamentos automáticos”. Estes tipos pensamentos são aqueles que surgem automaticamente e, no caso dos pensamentos automáticos negativos, com conteúdos contrário aos interesses do sujeito e carregados com emoção desagradável. Aprender a modificar esses pensamentos, de forma a mudar a maneira como se percebe a situação torna-se um dos objetivos no tratamento com a terapia cognitiva, associada ao enfrentamento de situações.

Ansiedade e Medicação

O tratamento medicamentoso é freqüentemente o primeiro tipo de acompanhamento procurado. Os ansiolíticos são hoje utilizados em larga escala quando surge qualquer indício de ansiedade. Apesar de ser importante o tratamento com medicação, é crucial avaliar a real necessidade e adequação desse tipo de tratamento em cada caso. Nos casos mais graves e crônicos, o tratamento medicamentoso vai auxiliar a psicoterapia para que o sujeito consiga dar os primeiros passos para superar a situação. Porém, independentemente de se tomar medicação ou não, se não for tratado o que mantém a ansiedade o indivíduo terá uma redução dos sintomas de ansiedade, mas dificilmente superará o problema completamente.

TCC e a ansiedade.

A terapia cognitivo-comportamental (TCC) vai trabalhar junto ao paciente a psicoeducação, o autoconhecimento, assim como estratégias para se lidar com os diversos tipos de transtornos de ansiedade. O tratamento é focal, com ênfase na resolução do problema no presente. A duração do tratamento vai depender de cada caso, contudo normalmente quanto mais cedo em relação aos primeiros sintomas de ansiedade, mais simples se torna lidar com a situação. No entanto, um dos pontos principais que vai determinar o bom prognóstico do tratamento será a disposição e envolvimento do paciente com o processo. A postura pró-ativa é muito importante na Terapia cognitiva. Os resultados dependerão não apenas do que acontece durante a terapia, mas sim pela repercussão desta pela mudança de comportamento que o paciente vai ter fora da sessão. Quanto mais engajado o paciente estiver com o tratamento e o modelo de intervenção da Terapia cognitiva melhores serão os resultados.

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Os transtornos de ansiedade apresentam uma grande ocorrência nos dias atuais. Apesar dos contratempos provocados ao estado emocional de quem possui essa condição, são problemas que têm tratamento e podem sim serem superados. Para isso, no entanto, é importante o reconhecimento do surgimento de um possível transtorno e a procura de um profissional especializado para ser realizado o tratamento adequado.

 

 

 

Publicado em
05/04/2013