'

Cognus Psicologia

Aqui você conhece uma pouco mais sobre a Terapia Cognitivo- comportamental

Tolerância Zero!!!

Hélder Franco

Sem dúvida alguma, o sentimento de decepção ou frustração é um dos piores com os quais podemos nos deparar. Quantas vezes já não passamos por alguma situação em que as coisas não saíram exatamente do jeito que tínhamos planejado? Seja porque determinada pessoa não agiu da forma como esperávamos que ela agisse, seja porque nós mesmos não conseguimos obter o melhor rendimento possível, como numa prova, por exemplo. O fato é que todos certamente já se depararam com alguma situação que provocou algum tipo de descontentamento, em maior ou menor grau. Faça um teste: talvez hoje mesmo você já tenha se sentido dessa forma. Relembre tudo o que fez no dia até agora e analise se algo não acabou lhe provocando algum sentimento de frustração, por menor que seja – talvez devido a alguma notícia vista no jornal matinal ou mesmo porque está página demorou muito a carregar, caso o seu computador não tenha o processador que você queria que ele tivesse.

            O interessante é que existem pessoas que são bem menos afetadas do que outras. Quando algo dá errado – ou pelo menos não tão certo – elas adotam uma postura mais ¨relaxada¨, procurando enxergar o lado positivo da coisa, o que pode ser melhorado da próxima vez ou simplesmente esquecer tudo e ¨bola para a frente¨. Já outras pessoas ficam extremamente transtornadas quando as coisas não acontecem exatamente como planejado. São aqueles comumente chamados de perfeccionistas. Geralmente cobram muito de si e das outras pessoas, visando sempre o melhor desempenho e um resultado impecável. Já dá pra imaginar a confusão que dá quando uma pessoa desse tipo é obrigada a trabalhar em grupo com outras mais ¨relaxadas¨.

            Essas diferenças pessoais explicam porque algumas pessoas são mais suscetíveis à frustração do que outras. Mas, aprofundando-se um pouco mais na questão, o que faz com que algumas pessoas sejam mais perfeccionistas, mais ¨relaxadas¨ ou fiquem num meio termo entre esses dois extremos? Farei uso de um exemplo bem cotidiano para tentar esclarecer essa dúvida um pouco melhor.

            Quem gosta de futebol provavelmente já passou por uma situação desse tipo. Imagine que seu time do coração irá enfrentar o melhor time do campeonato. O adversário, além de jogar em casa, conta com um retrospecto nitidamente superior. Está invicto, possui a melhor defesa dentre todas as equipes, conta com o artilheiro da competição e, ainda por cima, seu time está desfalcado do melhor jogador que possui no elenco. A partida acontece, equilibrada e tensa, e o empate sem gols persiste até o final da partida. Após o jogo, o goleiro do seu time declara numa entrevista que o resultado ¨teve o sabor de uma vitória¨ em virtude das circunstâncias, algo que certamente você irá concordar, sentindo-se satisfeito com o resultado.

            Entretanto, se a mesma declaração fosse feita após um empate em casa com a equipe que ocupa a última colocação no campeonato, você provavelmente não concordaria – talvez chegasse até a ficar irritado com tal declaração. O resultado seria o mesmo, mas a forma como ele é encarado pelos jogadores e pela torcida difere dramaticamente de um caso para o outro. Isso acontece porque as expectativas que são construídas previamente acerca do resultado da partida também são diferentes. No primeiro caso, o empate acaba por ser considerado como um bom resultado porque a probabilidade de derrota é bem maior. Conseqüentemente, não são construídas expectativas muito altas de que o time venceria a partida. O zero a zero acaba até mesmo superando aquilo que era esperado e, portanto, causa satisfação. Já no segundo caso, as expectativas acerca da vitória eram bem maiores, deslocando o resultado da partida para um ponto abaixo daquilo que era minimamente esperado. A irritação causada pelo resultado decorre do fato da não-satisfação das expectativas anteriormente traçadas.

            Da mesma forma, pessoas mais perfeccionistas constroem expectativas muito elevadas sobre si mesmas e outras pessoas. O trabalho não precisa somente ficar bom, mas sim o melhor dentre todos. As pessoas devem agir segundo a forma como elas percebem ou acreditam ser a melhor forma possível de agir. Obviamente, as expectativas traçadas são muito altas e, em decorrência, o nível de tolerância diminui, pois expectativas altas são mais difíceis de serem atingidas – imagine se esperássemos que nosso time ganhasse sempre, independente de qual fosse o seu adversário? Seguindo esse raciocínio, poderíamos concluir que:

Maior Expectativa = Menor Tolerância = Maior Frustração

            Podemos perceber a presença da sentença acima ilustrada em uma série de situações na nossa vida. Muitas vezes, ao conhecermos uma pessoa, somos ¨dominados¨ por uma visão idealizada que construímos acerca do parceiro ideal, e sem perceber acabamos nos apaixonando não pelo que a pessoas é, mas pelo que queríamos encontrar nela. Posteriormente, quando nossas expectativas não são completamente satisfeitas, aparece aquele sentimento de desilusão ou decepção, que causa tanto sofrimento. Geralmente as pessoas que passam por isso se perguntam: ¨Mas como é que eu não tinha conseguido enxergar os defeitos dele(a)?¨.

            Pode ser que imagem daquela pessoas tenha sido construída a partir das suas expectativas pré-concebidas e não a partir de dados objetivos que apontam como aquela pessoa verdadeiramente é. Certa vez conversava com uma pessoa que me contava sobre a decepção que tivera ao encontrar-se com um cantor do qual era muito fã. A oportunidade de estar bem ao lado do ídolo poderia ter sido um momento inesquecível, não fosse o tratamento frio que lhe foi dispensado por ele. A decepção foi causada não propriamente pela forma como ele reagiu, mas sim pela forma como essa pessoa percebeu essa reação, que obviamente foi bem diferente daquele tratamento que ela esperava receber. Sua visão de fã influenciou na imagem construída acerca de seu ídolo, fazendo com que, mesmo sem conhecê-lo, estabelecesse expectativas elevadas, que não foram satisfeitas.

            Dessa forma, é sempre bom reavaliar as expectativas construídas acerca de uma determinada situação, quando se percebe que o sentimento de intolerância está muito presente. Muitas vezes, o problema está na construção de expectativas irrealísticas que fogem ao nosso controle. Não podemos, por exemplo, esperar que TODAS as pessoas ajam conosco da forma como gostaríamos que agissem. Também não podemos esperar conseguir absolutamente TUDO que queremos, QUANDO queremos.

            Mas  problemas maiores ainda surgem quando, além de construir expectativas elevadas, não se age no sentido de fazer por onde transformar os planos em realidade. Não há nada de mal em esperar ser aprovado no vestibular para o curso mais concorrido da Universidade, por exemplo, desde que haja uma preparação adequada. No entanto, se essa preparação não ocorre e o sujeito fica apenas fantasiando a conquista da vaga, as chances de aprovação se tornam extremamente reduzidas. Situação semelhante é aquela de quem quer conseguir a aprovação, mas defende-se da responsabilidade de se preparar sob a desculpa de que a vaga é praticamente impossível. Nesse caso, as expectativas são reduzidas não em virtude da impossibilidade do objetivo em questão, mas pela ausência de esforços no sentido de alcançá-lo.

            Podemos, então, formular uma outra sentença, na maioria das vezes verdadeira:

Maior Expectativa + Maior Ação Orientada para o Objeto = Menor Frustração

            De qualquer modo, é sempre bom considerar que às vezes nossas expectativas podem não ser alcançadas, por diversas razões. Quando isso acontecer, é necessário proceder a uma análise sobre o que deu errado, para se buscar uma solução futura. Pode ser que tenha faltado algo ao nível da ação – que poderá ser planejado melhor posteriormente - , mas pode ser que as expectativas construídas sejam elevadas demais ou até mesmo irrealísticas, sendo necessário, portanto, reformular objetivos que sejam de fato exeqüíveis. Agindo desse modo, gradativamente, é possível reagir melhor às frustrações do dia-a-dia, sem resultar numa acomodação passiva frente às situações. Quando estivermos preparados para isso, provavelmente estaremos manifestando um nível de tolerância mais saudável para nós mesmos e para os outros que convivem conosco.