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Cognus Psicologia

Aqui você conhece uma pouco mais sobre a Terapia Cognitivo- comportamental

As Conseqüências da Mudança de Pensamento

Zwínglio Christopher    zwcho@yahoo.com.br

            Muitas pessoas acreditam que são como são ou que sentem o que sente por causa das situações que passam. Atribuem ao ambiente toda a responsabilidade por ficarem tristes, com raiva, ou ainda, em depressão ou em pânico. É o caso da mulher que perde o namorado, que entra em depressão e atribui a sua depressão ao fato do namorado ter abandonado-a. É o caso da pessoa que tem medo de carro e coloca o medo no automóvel por esse ser perigoso. É o caso do homem que se sente ansioso em locais com muitas pessoas e diz que este medo se justifica porquê as pessoas causam ansiedade nele. São esses e tantos outros acontecimentos em que muitas pessoas colocam nas situações ou ambiente externo toda a culpa por suas emoções intensificadas. Mas uma questão que todos deveriam se perguntar é: se a responsabilidade por essas emoções é da situação, por quê nem todo mundo que passa por acontecimentos semelhantes sente as mesmas coisas? A resposta está na maneira particular que cada um de nós encaramos estes acontecimentos do dia-a-dia. Mais precisamente, no que pensamos a respeito da situação e da capacidade que acreditamos ter para enfrentá-la. A história* que se segue serve para exemplificar o efeito que um simples pensamento pode ter na vida uma pessoa.

            Imagine que você vê um homem chamado Paulo andando pela rua. Ele é absolutamente normal. Na média, em todos aspectos – nada excepcional, nada louco, nem mais neurótico que qualquer outra pessoa. Ele é vendedor em uma loja de departamentos da cidade, tem mulher e dois filhos. Às quintas-feiras ele joga boliche com amigos e aos sábados é técnico de futebol mirim. Às vezes exagera na bebida nas festas da vizinhança e começa a discutir política aos gritos. Normalmente, porém, não bebe e trata a maioria das questões de forma bastante sensata. A vida sexual com sua esposa é boa. Embora não seja tão excitante quanto no início, parece deixá-la satisfeita. É um bom pai, passa mais tempo com os filhos do que a maioria dos pais, corrige-os quando estão errados e os acolhe quando estão doentes. É razoavelmente popular. Tem o dom de se relacionar com os mais diferentes tipos de pessoas – seus colegas vendedores, o porteiro, seus amigos do futebol, seus vizinhos.

            Agora imagine que fizéssemos uma coisa com Paulo. Imagine que tivéssemos descoberto a composição química exata de um pensamento. Isso significa que teríamos descoberto a composição química de uma idéia, como “a terra é redonda”, ou ainda, “o mundo é um bom lugar para viver”. Mesmo que os pensamentos não possam ser colocados em seringas siga a fantasia. Digamos que gostaríamos de injetar um pensamento específico em Paulo  - uma idéia e não um monte delas. Uma vez injetado o pensamento instala-se; Paulo não pode mais removê-lo. Não fazemos mais nada com Paulo – apenas injetamos nele um único pensamento.

            Escolhemos um pensamento ao acaso, digamos que uma substância com o pensamento que diga que “para ser feliz, preciso que todos gostem de mim”, e colocamos numa pistola de tranqüilizante, esperando que Paulo passe por nossa casa. Finalmente, em um domingo à tarde, enquanto está passando, acertamos ele com o pensamento.

            Se o seguirmos por algum tempo, não haverá nenhuma mudança perceptível. Se olharmos muito detidamente, talvez vejamos algumas mudanças; seu passo mudou um pouco. Enquanto, antes, o passo era firme e decidido, agora parece mais hesitante. Ele se preocupa com o jeito como as outras pessoas estão caminhando e tenta imitá-las.

            Seguimos Paulo pelo resto do dia e à noite. É sábado e ele foi a uma festa na casa dos vizinhos com sua mulher. Ele gosta dessas festas e costuma ser um dos convidados mais populares. Não desta vez. Parece nervoso, não sabe com quem falar e fica lá, de pé, sem saber onde colocar as mãos. Um amigo pergunta à esposa se ele está se sentindo mal. Dois vizinhos seus estão tendo a discussão mensal sobre política e perguntam a Paulo qual sua opinião. Ele responde: “Bem sempre existe dois lados para uma mesma questão e não se deve tirar conclusões precipitadas”. Os vizinhos olham para Paulo com estranheza. Ele nunca fora tão inseguro. Simplesmente dizia o que pensava. Os vizinhos abanam a cabeça e se vão.

            Mais tarde Paulo e sua esposa vão para a cama. Ele quer fazer amor, mas não sabe como dizê-lo. Diz, pelo menos cinco vezes: “Você sabe, se estiver cansada eu entendo”. Ela garante que está ótima. Paulo, entretanto, fica desconfortável fazendo amor. Fica perguntando: “Está bom para você” e pergunta se é um bom amante.

            Na manhã seguinte, tem dificuldades no futebol. O pai de um dos meninos pede-lhe que escale seu filho para jogar – o menino não joga bem, é desajeitado, nunca pratica e nunca se preocupa em aprender a tática do jogo. Apesar disso Paulo fica com medo de dizer não e coloca um de seus novatos (cujo pai não está por perto) no banco de reserva. O menino tropeça três vezes e o time perde feio.

            Se nos projetarmos no futuro, notamos que Paulo está passando por outras dificuldades. Está tendo problemas no casamento, desenvolveu disfunção erétil e, há mais de um ano, não consegue fazer amor. Procurou um terapeuta para o qual falou: “É como se ficasse assistindo a minha própria performance”. Desenvolveu uma úlcera. Faz hora extra no trabalho para agradar o chefe. O time de futebol arranjou um novo técnico depois que perderam seis jogos seguidos. Há tempo não é convidado para festa, embora os amigos ainda organizem. Experimentou vários tipos de tranqüilizantes, mas nenhum o ajudou.

            Sabemos o que houve: nossa pequena injeção transformou-o completamente. O pensamento que injetamos “para ser feliz, precisamos que todos gostem de mim” é um dos principais determinantes cognitivos (ao nível do pensamento) do que os psicólogos e psiquiatras chamam de fobia social. Injetando-o em Paulo, arruinamos sua felicidade – transformou-se em um “agradador” de pessoas, um fóbico social.

            Pode parecer estranho que uma única idéia possa causar tanto sofrimento. Porém, idéia que implantamos é particularmente arrasadora. Ela corrói o que era espontâneo em Paulo e o transforma em uma marionete social. Ele perde sua individualidade e anda de um lado para o outro, tentando agradar a todos. Ironicamente, quanto mais tenta agradar, mais acaba afastando as pessoas. Elas perdem o respeito por alguém, que não expressa suas próprias opiniões ou que tem medo de se posicionar. O pensamento que injetamos faz com que Paulo pareça um bobo. Como se fosse apenas um espelho, refletindo o que quer que seja projetado nele.

            É claro que não existem pensamentos engarrafados ou em seringas que possam ser injetados. Entretanto, os pensamentos podem introduzir-se tão rapidamente, tão profundamente e causar devastação sem que sejam injetados em nós. Esses tipos de pensamentos (desagradáveis) são adquiridos ao longo da vida, de acordo com nossas experiências e a forma como estas são avaliadas. Para que se mudem esses pensamentos, e suas conseqüências, é preciso primeiro que se consiga admitir e identificar a sua existência, para que desta forma possam ser reavaliados e modificados.

0*adaptada do livro: Manual de Técnicas em Terapia Cognitiva – de McMullin, R. E